(Aviso: Esse post ficou meio longo devido aos relatos transcritos de participações na última maratona de SP. São relatos precisos e ao mesmo tempo emocionantes . Sorry!)
Neste período em que estou de molho, estou aproveitando para ler fóruns (ou fora, seguindo a regra do latim) e principalmente blogs de corredores que já estão na estrada há bem mais tempo que este japonês perneta (rs).
Em particular, li vários relatos sobre a maratona de SP que se realizou neste último dia 31 de Maio, com vitória do Queniano Elias Chelimo no masculino e da Brasileira Marizete Moreira no feminino.
Alguns aprendizados importantes:
-Escolha da prova: A maratona de SP tinha algumas peculiaridades. Por ser um evento com patrocínio e transmissão da rede Globo, o evento teve alguns problemas para os corredores “sérios”:
- Horário de início da prova: Enquanto a maioria das provas começa às 7 da manhã, a maratona de SP começou às 9. Isso fez com que o corredor médio que planejou sua prova num tempo de 3 a 4 horas teve que terminar sua prova às 12/13h com o sol a pino, castigando a careca;
-Muvuca na largada: Pra gerar volume, todas as categorias largavam no mesmo horário (exceção feita aos cadeirantes e a elite feminina, que largaram antes). Isto quer dizer que os participantes dos 25km e 10km largaram juntos com os maratonistas, gerando o problema do atropelo daqueles que por um motivo ou por outro saem no estilo “estouro da boiada”. Fora aqueles que se aglomeravam para fazer o famoso “Alô mamãe” pras câmeras da gRobo.
-Altimetria: O percurso da maratona passava por pontes e túneis o que tornam a prova especialmente desafiante, principalmente para os marinheiros de primeira viagem
Aprendizado 1: Se vc for de para-quedista numa prova, prepare-se para as consequências.
Aprendizado 2: A maratona de SP provavelmente não é a melhor prova para se fazer uma estréia na distância. Não quer dizer que não pode ser feita, mas é uma estréia de fogo.
-Preparação: Fiquei muito, mas muito impressionado mesmo com os vários relatos sobre as dificuldades de enfrentar uma maratona.. Vejam alguns trechos de dois desses relatos:
O começo
“Dada a largada eu estava me sentindo muito bem, optei por dividir a prova em três partes de 14km cada uma, estava rodando em uma média de 5min/km um pouco mais talvez e passei o primeiro terço da prova em 1h13mins., o que projetava um bom ritmo para meu alvo de 3h45min. ou no plano B no máximo 3h59min., foi para isso que treinei.
Passei a metade da prova, 21kms em 1h52min., tempo muito bom, mantendo a projeção e melhor, meu corpo respondendo bem.”
“O pace seguia alto à beça, mas em um ritmo também bastante gostoso de correr, permitindo conversar tranquilamente. 6:12 no Km 5 (já acima dos 31 minutos de prova !), 6:04 no Km 6, já dentro do túnel…Agora sim, o ritmo parecia mais constante e condizente com a realidade. 6:07 no Km 7, segundo posto de água, aproveitando para abrir o primeiro dos cinco sachês de gel de carboidrato…Passamos pela marca do Km 20 e eu nem lembrei de conferir a parcial. Na do Km 21, ela já era de 2h11min, com uma plaquinha extra logo à frente, indicando a metade exata do percurso. A projeção de 4h22min já começava a deixar os planos iniciais, não confessados em público, mas internos, um pouco mais complicados. Mas tudo bem, continuava tudo muito gostoso, a sensação de continuar indo em frente, chegar ainda inteiraço aos 50% era gratificante.”
Tudo sob controle, certo?
“No km. 22 aproximadamente, pisei em falso com a perna esquerda, levemente em minha impressão inicial, não sei se foi uma pedrinha ou algo assim, mas não dei importância, senti apenas uma leve dor no tornozelo, mas chegando ao km. 23 senti um fisgada na virilha esquerda, reduzi o ritmo, comecei a prestar atenção, dois quilômetros após, no km. 24 o que era uma pequena fisgada transformou-se numa espécie de caroço e endureceu minha coxa esquerda, no km. 25, já sem ritmo, parei no posto de hidratação, passei gelo, mal conseguia andar, sentei, aguardei 10mins., me senti melhor, retornei à prova, parti para o Plano B, cumprir em 3h59min, já que no plano C eu nem queria pensar.
No km. 27, parei novamente, a panturrilha esquerda endureceu totalmente, a perna praticamente paralisou, não dobrava, eu gritei de dor, nunca tinha sentido isso, as pessoas olharam assustadas, um rapaz da assistência médica, com uma bicicleta, parou, me passou um spray na perna, dessa vez eu não podia nem sentar, aguardei, depois caminhei, depois me arrastei… Em ritmo muito lento segui até o km. 33, ora andando, ora trotando, ainda dava, eu pensava, ainda dava…. No km 35 nova dor muito forte, a cada passo com a perna esquerda a virilha enrijecia, a coxa parecia uma tábua, o joelho começou a doer e pior a perna direita não aguentava mais a compensação do esforço e meu veio forte cãibra e fiquei parado sem me mexer um bom tempo, depois relaxou e prossegui, caminhando, trotando, ainda dava, ainda dava, só o psicológico acreditando, o corpo já não acreditava. No km. 38 parei, desisti, era o fim, sentei e chorei, pois é pessoal, chorei, eram cinco meses de dedicação chegando ao fim, em nenhum momento em todos esses meses eu senti qualquer cãibra, qualquer dor, que não as normais dos treinos, não sei se foi a pisada torta num buraco ou numa pedra, mas desencadeou um processo como nunca senti igual em minha vida”
“A subidinha logo à frente, da conhecida (até então, apenas de nome) Rua do Matão, parecia tranquilinha, não justificando a fama. Mas vá dizer isso aos meus quadríceps. Eles já doíam bastante naquele momento, de forma até precoce. Subi uns dois terços dela correndo, depois optei por andar um pouquinho, apesar do incentivo do corredor que passou. Caminhada estratégica, tentando poupar ali para ter o que gastar mais à frente. Chegando à rotatória, retomei o trote. Naquele momento, ficava claro e cristalino o quanto os treinos mais longos, acima dos 30 Km, planejados, mas não cumpridos, estavam fazendo falta. Teria que ser na marra dali pra frente. “Se” não existe em corrida (e nem na vida em geral), mas, ah, se pelo menos fosse plano … Juntar esse ponto, naturalmente crítico para a maioria dos corredores, com um trecho misto, com subidas nem tão fortes, mas bem desgastantes, dava à prova um grau de dificuldade bem maior que o esperado. E o conforto climático também tinha ficado para trás…Ver a saída da USP logo ali, a marginal cheia de carros passando, me deu uma vontade imensa de por ali mesmo parar, pegar um táxi, um ônibus, uma ambulância, uma nave espacial, qualquer coisa que fosse. Mas pensei: tinham sido cinco meses de treino, muito sacrifício para estar ali. Será que valia a pena abrir mão de tudo por umas dorzinhas na coxa, na panturrilha, na sola do pé e, mais do que tudo, na cabeça ? Eu estaria colocando em risco a minha saúde e a minha integridade física se continuasse ? Para ambas as perguntas, achava que a resposta era não. Então decidi: seguiria adiante, ainda que não fosse com uma postura das mais bonitas. Olhava em volta e via que não era o único. Muita gente, na mesma situação, continuava na corrida visivelmente na base da insistência.”
Aprendizado 3: A maratona é uma prova que exige respeito e um treinamento sério. Mas isso não é garantia de que as coisas irão acontecer conforme o planejado. Como descrito aqui, os dois corredores treinaram (pelo menos) 5 meses pra essa prova mas o imprevisto sempre está à espreita.
Aprendizado 4: Apesar de todas as dificuldades, ambos os atletas chegaram ao final! Apesar de ser um termo batido, a superação é vital principalmente quando o seu corpo está dando todos os sinais para você desistir e a única que empurra você pra frente é essa teimosia, esse orgulho, essa força de vontade de cumprir com a sua meta. E neste processo, contar com o apoio dos amigos, da família, dos camaradas corredores e de desconhecidos que estão lá torcendo. É um esporte solitário, pero no mucho.
Agradecimento especial ao Walter Barbosa do blog Longas distâncias e ao Fábio Namiuti que relata seu treinos e corridas no seu site por permitirem que seus relatos fossem transcritos aqui.