(Tive a oportunidade de fazer o meu relato para a Contra-Relógio no Podcast #31 da revista. Espero que curtam!)
Motivado mais uma vez pelo amigo Ivo Cantor que fez esta prova no ano passado, inscrevi-me para esta que é a maratona mais antiga da Flórida e este ano celebrou sua 40ª. edição. Para mim foi também uma questão de conveniência já que passei o final de semana prolongado em Orlando, que fica a apenas a uma hora de Cocoa (cacau em inglês), local da largada. Para quem não sabe, na 4ª. quinta feira de Novembro, os Estados Unidos celebram o dia de Ação de Graças que é o feriado mais importante no ano (mais até que o Natal). Nada melhor do que uma corrida para compensar as extravagâncias gastronômicas da ocasião, quando tradicionalmente se degusta um belo peru e vários acompanhamentos.
A prova tem este nome por ser organizada pelos Space Coast Runners que por sua vez tem esse nome devido à principal atração da região do Cabo Canaveral: O Kennedy Space Center. De lá foram lançados todos os ônibus espaciais além dos foguetes que fizeram parte do programa espacial americano desde 1968, incluindo o programa Apollo que levou o homem à lua. E fomos brindados com uma grata coincidência. No Sábado da entrega dos kits houve o lançamento do foguete Atlas V que levou o Mars Science Laboratory numa missão que irá durar 9 meses até seu objetivo final, a aterrisagem em Marte. Ou seja, aqueles que foram logo cedo retirar seus kits tiveram a sorte de assistir de perto ao vivo e em cores o lançamento de mais um foguete.

Por uma questão de conveniência, eu e minha família escolhemos um hotel que ficava mais próximo da largada mas que estava a meia hora de distância da NASA. Tivemos apenas tempo de deixar as malas no quarto e seguir correndo para a expo. A retirada do kit foi super rápida o que me permitiu entrar logo na feira onde eu tinha um objetivo: conhecer Kathrize Switzer, a primeira mulher a correr a maratona de Boston em 1967. Ela estava quase terminando sua sessão de fotos e autógrafos então mais que depressa entrei na fila e lá mesmo acabei pegando um exemplar de seu livro “Marathon Woman” para conseguir um autógrafo. A pessoa que estava na minha frente estava fazendo sua primeira maratona e recebeu um grande abraço de incentivo da Kathrine. Quando chegou a minha vez ela perguntou se eu tinha algum objetivo especial e a única coisa que me veio à cabeça foi tentar fazer a prova em menos de 2h. E foi o que ela escreveu na dedicatória: “Let’s go – sub-2h”. Até ela ficou meio frustrada com a falta de agressividade/originalidade mas fazer o quê… Pelo menos tirei uma foto bem legal.



Fomos tarde porque após o término da entrega dos kits a organização ofereceu um jantar de massas ao módico custo de US$50 tendo como pano de fundocima o foguete Saturno V. Como o foguete está em exibição já dentro do complexo de lançamento, fomos transportados em ônibus que fazem o tour oferecido para os visitantes “normais”. Como já havia escurecido não pudemos desfrutar de todas as atrações do tour mas mesmo assim pudemos ver o VAB (vehicle Assembly Building) onde foram construídas todos as naves do programa espacial e que é considerado o maior edíficio de um único andar no mundo.
A comida em si infelizmente não foi lá muito memorável. O cardápio que consistia de salada, 3 diferentes tipos de massas, frango, peixe e sobremesa era satisfatório mas a preparação não estava lá essa brastemp. O ponto alto do evento foi a presença de 3 personalidades: Um corredor que participou da primeira edição da maratona, um ex-astronauta e Kathrine Switzer. Obviamente as atenções estavam voltadas para Kathrine que contou em detalhes como foi a sua história na Maratona de Boston e seu trabalho em prol do pedestrianismo feminino que culminou com a inclusão da maratona feminina na programação das Olimpíadas de Los Angeles em 1984. O nosso Brasil foi mencionado também já que fez parte do circuito de corridas da Avon, da qual Kathrine foi diretora esportiva no final dos anos 70 e início dos anos 80, e foi usado como exemplo para mostrar que havia interesse do público feminino nas corridas de rua apesar de ceticismo dos dirigentes da época.

A prova
Como é de praxe acordei uma hora antes da saída para ter meu bate-papo tranquilo com o Wanderley Cardoso. A família acordou um pouco depois e como zumbis saímos todos em direção à largada. Foi super-fácil achar um bom lugar para estacionar bem próximo à largada. Como é bom não ter que se preocupar com os flanelinhas! hehe Como tinha tempo de sobra ainda tive tempo para mais um tira teima com o Wanderley e fazer um aquecimento antes de me encaminhar para a largada. O início pontual da prova esteve em risco já que durante a madrugada um carro havia se chocado com um poste que caiu e acabou bloqueando o trajeto da maratona. A companhia de eletricidade foi acionada e conseguiu liberar o percurso apenas 30 minutos antes da largada, evitando assim a necessidade de um desvio ou a transformação do evento em um cross country com obstáculos.

Enfim às 6:15 da manhã, com a temperatura na casa dos 22 ºC e tempo nublado, largamos vendo no telão o vídeo de lançamento de um ônibus espacial. O trajeto era plano e na maior parte do tempo ia margeando a costa brindando os corredores com uma boa visão do mar. Por outro lado essas áreas abertas também traziam muito vento que às vezes dificultavam um pouco a manutenção do ritmo. Os corredores da maratona fizeram um volta logo no primeiro quarteirão e seguiram em direção norte, percorrendo 10,5km e retornando na direção sul para encontrar o percurso feito pelos que optaram pela meia maratona.
A organização colocou a disposição marcadores de ritmo tanto para a maratona como para a meia maratona. Como estava posicionado um pouco mais atrás na largada fiquei um pouco distante dos marcadores e não pude me beneficiar dos seus “serviços”. Fui controlando meu ritmo através do GPS e senti que estava num ritmo confortável nos primeiros kms. Quando o vento bateu mais forte eu não tive vergonha de me “esconder” atrás de um corredor que estava próximo. Mas como o dito cujo insistia em ficar cuspindo para os lados decidi passá-lo e seguir adiante.
Os postos de hidratação estavam distribuídos aproximadamente a cada 3km. Como é de praxe eles usavam copos abertos e sabendo disso usei um recurso que aprendi de meu chefe-corredor-ironman: levei comigo um canudo preso sob o meu GPS. Evita engasgar e até agiliza a hidratação. Outra dica é já ir gritando o líquido que você quer ao se aproximar dos postos já que ofereciam água e gatorade misturados. Faltando menos de 1km para fazer o retorno e tomar rumo norte avistei os marcadores de ritmo compatíveis com o meu objetivo sub-2h e achei que tinha chance de alcançar ao menos um deles.
A marcação do percurso foi feita em milhas e os relógios com as parciais estavam posicionados nos kms 5, 10 e 15. Fui bem até este último relógio. Talvez o esforço para tentar alcançar os marcadores de ritmo tenha prejudicado minha estratégia porque a partir daí fiquei cansado. Vi os líderes da maratona já vindo na direção sul e também um motorista perdido em meio aos corredores e alguns caminhantes. Pelo menos ele não parecia estressado. Esse foi realmente o único ponto negativo da prova: o trânsito não estava bloqueado e a maioria das ruas estava sendo controlada por voluntários que solicitavam aos motoristas que procurassem caminhos alternativos. Dentre os locais que estavam assistindo a corrida havia uma banda de adolescentes. No percurso de volta vi dois deles correndo com tubas atrás de duas corredoras. Após alguns metros elas perceberam o que estava acontecendo e todos em volta se divertiram com a cena.
Voltando à minha corrida, eu vinha alternando posições com um corredor que caminhava e logo voltava a correr enquanto eu ia num ritmo bem mais lento que o do início. Comecei a sentir dores abaixo da costela mas segui. Por volta do km 20 o estômago embrulhou e me vi caminhando em 2 ocasiões. Voltei a correr faltando uns 500m para a conclusão. Quando chegamos ao parque que abrigava a linha de chegada o percurso ia por um caminho de tijolos que era razoavelmente estreito. Decidi que era hora de fechar com dignidade e fazer um mini-sprint. Pedi passagem para duas corredoras e acabei indo pelo meio das duas. Acho que uma delas não gostou muito e decidiu me perseguir. Fomos juntos até faltar uns 50m quando coloquei velocidade o suficiente para deixá-la para trás. Confesso que fiquei com ânsia logo após a chegada mas passou e pude conferir meu tempo: 2h03’00. Um tempo decepcionante para quem já fez 1h51’ e estava com esperanças de voltar a fazer sub-2h. Fiquei devendo para a ídala e para mim mesmo.




A medalha de concluinte era muito bonita, com a inscrição dos 40 anos e um ônibus espacial. A organização ofereceu um café da amanhã reforçado incluindo panquecas, pizza e hamburguer e suco da laranja original da Flórida. Lá mesmo já tive oportunidade de conferir meu tempo na listagem oficial da prova. Depois de tirar fotos ao lado do uniforme de astronauta e do ônibus espacial ainda pude assistir a chegada do vencedor da maratona, um atleta da Nicarágua que estava em busca do índice olímpico. Foi uma prova bem organizada que ainda tem a vantagem de estar a apenas uma hora de distância de Orlando. Diversão para as crianças e diversão para os adultos. Recomendo!
Resumo da Peleja
Número de Peito (bib): 3334
Tempo Bruto: 2h04’43″
Tempo Líquido: 2h03’00″ (parciais: 5km 28:37, 10km:56:26, 15km: 1:24:38
Colocação: 513 de 2178 (geral), 63 de137 (40 a 44 anos)






















